Sofrimento e adoecimento nas organizações

*Carolina Martins

O triunfo da robotização, da informática e da automação deveria trazer a emancipação dos homens em relação ao trabalho e não o contrário. As tarefas de manutenção deveriam ter diminuído, assim como o trabalho desaparecido e tudo passaria a ser feito pelas máquinas, entretanto, na realidade, evidencia-se uma explosão de patologias por sobrecarga.

As transformações tecnológicas nem sempre ocorrem de acordo com o planejado pelas organizações, uma vez que outros atores sociais estão envolvidos nessa complexa realidade, além da implantação de um novo sistema também depende da participação de trabalhadores e usuários. Para o usuário o computador é uma máquina inteligente e tem suas razões para assim proceder.

Portanto, é preciso compreender como ocorrem efetivamente (nas situações concretas) essas transformações e os respectivos sentidos produzidos pelos trabalhadores. A Tecnologia da Informação tem ocupado seu lugar na sociedade, de tal forma que, todas as pessoas a utilizam diariamente. Causou grandes impactos na sociedade contemporânea. Muitos se deparam com as dificuldades apresentadas por ela, pois para utilizá-la adequadamente é necessário um acompanhamento minucioso.

Realizou-se estudos, para averiguar como é organizado o trabalho informatizado e de quais condições o profissional dispõe para realizá-lo por meio da Clínica Psicodinâmica do Trabalho, a qual, com base na teoria psicanalítica e nas ciências sociais, que procura desvelar e compreender as vivências intra e intersubjetivas de uma categoria específica sobre a organização do trabalho. De acordo com os resultados obtidos a informatização dos processos, ao mesmo tempo em que facilita a função do trabalhador, também gera sobrecarga de trabalho, invadindo a vida privada do indivíduo e fazendo com que ele se veja na obrigação de estar o tempo todo à disposição da Instituição, visto que mesmo fora de expediente está resolvendo questões relacionadas à sua função.

Esse aspecto delineia um modo de viver do trabalhador em que ele não reconhece os limites entre tempo de trabalho e não trabalho. Sentidos positivos e negativos são atribuídos à tecnologia pelos participantes quanto à invasão da vida pessoal, saúde e cultura. Dentre outras responsabilidades administrativas, os trabalhadores contraem também uma carga de trabalho burocrática e administrativa diante da informatização de novos processos, além de arriscarem-se à crítica dos pares e à eclosão de conflitos com os colegas.

Os resultados apontaram sobrecarga de trabalho demandado pela nova organização de trabalho onde a tecnologia é inserida e questionamentos quanto à normatização e ao discurso ser diferente da prática. As tecnologias foram criadas para melhorar, agilizar, simplificar e substituir o trabalho braçal, no entanto, percebe-se que diante essa nova realidade que se é apresentada, ocorre uma aceleração e sobrecarga de trabalho.

O contato com o outro diminuiu, interferindo nas relações ou até mesmo substituindo relações humanas por relações homem-máquina. As estratégias defensivas utilizadas pelos indivíduos não contribuem para a cooperação e o relacionamento entre os pares, gerando o esvaziamento dos coletivos. O computador passou a ser o melhor amigo e de acordo com os participantes conversar com ele é melhor do que conversar com outras pessoas. Percebeu-se que cada vez mais as ordens chegam por tecnologias, não há voz, não há gesto, não há expressão do corpo, tornando-se algo sem afetividade.

Outras ferramentas, além do computador advindo deste novo mundo tecnológico também levam a uma corporificação, como o celular que parece ter se tornado um membro a mais do homem, muitas vezes sendo referido pelos participantes da pesquisa como braço direito, sendo possível abster-se de outras tecnologias, mas o celular sempre está em contato, como enfatizou um participante da pesquisa. A inserção de novas tecnologias, como o celular, significa para o trabalhador um dispêndio de energia, cujo resultado é invisível aos olhos de muitos, senão da grande maioria.

No que se refere à vivência de prazer, a tecnologia proporciona mais autonomia e liberdade para exercer as atividades de trabalho, podendo desenvolvê-la em qualquer espaço físico. Vivências de sofrimento são evidenciadas por relatos que indicam falta de flexibilidade, centralização de poder, falta de autonomia, discurso diferente da prática, falta de cooperação, pressão por resultados e sobrecarga de trabalho. A falta de lugar para a subjetividade e a vida no trabalho limita a mobilização subjetiva dos trabalhadores. Apesar da falta de cooperação e da utilização de estratégias defensivas para enfrentar o sofrimento advindo da organização de trabalho, parece não haver risco de paralisia, pois o reconhecimento social ressignifica o sofrimento e mobiliza os trabalhadores a engajarem-se no desenvolvimento de soluções para os problemas enfrentados em seu contexto de trabalho.

A mudança no contexto organizacional engloba alterações fundamentais no comportamento humano, nos padrões de trabalho e nos valores em resposta a modificações ou antecipando alterações estratégicas, de recursos ou de tecnologia. O grande desafio não é a mudança tecnológica, mas a mudança das pessoas e a cultura organizacional, renovando valores para ganhar vantagem competitiva.

Constatou que, as constituições de espaços coletivos possibilitam ampliar a percepção do trabalhador sobre ele mesmo, a favorecer o seu processo de emancipação e a consequente intervenção naquilo, que o grupo identifica como necessário para melhorar a organização do trabalho. Os resultados sugerem que a instituição abra um espaço para discussão com os trabalhadores a fim de melhorar as condições e a organização do trabalho favorecendo assim a construção de estratégias coletivas de forma que promovam a saúde mental dos trabalhadores.

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Carolina Martins dos Santos – psicóloga: clínica, social e organizacional. É doutoranda e professora do curso de Psicologia da Faculdade Cambury.

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